Desta vez não esperei. Calquei a brisa muito de devagar. Já nem sentia. Estava anestesiada. Pensei em olhar para as estrelas mais uma vez. Porém, não o fiz, não por falta de coragem, mas porque já não acreditava naquilo que sentira. Preferia fitar o chão. Naquele momento, não havia amor, nem desespero, nem uma réstia de tristeza. Apenas uma palavra relembrava as minhas horas de outrora: frieza.
Pé ante pé, segui pela linha que dava até minha casa. Já nem conseguia pedalar na minha velha bicicleta tão feminina, tão cheia de luz. Apenas sacudia o peso dos ombros e olhava para baixo. Os meus passos adiantavam-se, assim como o tempo.
Na manhã seguinte, fiz tudo mecanicamente. Apenas uma coisa me fazia seguir: responsabilidade. Acordei racional, seria muito mais simples tomar uma decisão desprovida de sentimento.
O Sol brilhava pouco, apenas as nuvens tentavam ofuscar-me com o seu branco. Pestanejei para tentar ver além. Quando consegui abrir bem os olhos, vi que alguém estava encostado ao meu carro. Uma silhueta fez-me logo pensar "é ele"!
Aproximei-me lentamente. Outra cena de filme. Ultimamente parece que estavam sempre a contecer.
Era ele. Comecei a ficar vermelha de raiva e de ... de... nem sabia muito bem como o descrever.
Eu : O que é que estás aqui a fazer?
Olhou-me de cima a baixo. Após uma pausa, tirou os óculos de Sol, olhou-me nos olhos e disse-me:
H : Venho fazer-te um convite/proposta.
Eu : Como é que sabes que moro aqui?
Então, ele fez um gesto. Apontou com a cabeça para a minha bicicleta. Ela denunciou-me.
H : Procurei bem.
Sorri.
Eu : Afinal o que queres dizer?
A minha voz estava menos fria, mas continuava segura.
H : Quero que venhas comigo.
Eu : Agora não posso. Vou trabalhar. Devias fazer o mesmo.
H : Não precisa de ser agora. Eu espero-te.
Eu ri-me bem alto, com um ar de quem troça, desacreditando-o. Ele ficou em silêncio, pegou na minha mão e disse que queria estar comigo. Eu logo lhe respondi que já não acreditava.
H : A minha proposta é que venhas passar algum tempo comigo, onde quiseres, mas sem dizermos uma única palavra. Quero que ouças o meu coração bater e, se as nossas almas conseguirem comunicar como outrora, responderemos a todas as nossas questões, sejam elas quais forem.
Eli