Agora nem nómada, nem emigrante.


domingo, maio 12, 2013

Francisco #6







Estivemos a conversar um pouco. Desta vez não imitei o sotaque micaelense, senão teria muito que explicar.
Ele reparou que eu estava muito cansada para fazer conversa, quando olhei pela janela e não lhe respondi prontamente.
Esboçou um sorriso e pediu-me desculpa. Disse que se sentia sozinho há muito tempo por não ter ninguém com quem falar português.
Fiquei logo com muita pena dele, mas também de mim. Eu pensava precisamente o mesmo. Não falava com ninguém, havia algum tempo, mas no meu caso a culpa era minha. Tinha sempre medo que percebessem o meu estado de espírito. Esse receio estava tão camuflado que nem eu mesma reparava na sua existência.
- Reparei na grande mala que trazias. Nunca tinha visto uma tão enorme. – Fez uma pausa, gesticulou e prosseguiu. – Dava-me jeito uma assim, em vez de ter que andar com duas. Posso saber onde é que a compraste?
- Já nem me lembro bem…
Peguei nos fones, coloquei-os nos ouvidos e ele calou-se.
Fiquei com muita pena de mim mesma. Já não conseguia sorrir e ser simpática como antigamente. 

(Continua.)

Eli

sábado, maio 11, 2013

Francisco #5






E agora, estava ali o Ricardo. A distância física nunca nos fez abrandar na loucura e na procura. Traidor! Ele traíra os meus sonhos! Eu gostava demasiado dele para ficar uma semana inteira sem saber dele. O nosso desejo era tão poderoso… como poderia eu abandoná-lo?! Reticências, por favor, deixem-me em paz. Tenho que deixar o Ricardo no passado.
Seguidamente, reparei que já não ouvia a voz dele, nem o riso dela. De repente, virei-me sem pensar mais e a mesa estava vazia! Ninguém! Ninguém! Como poderia eu ter deixado escapar esta oportunidade para o confrontar?!
Olhei para o relógio e faltava apenas meia hora para voltar à minha cidade. Ah, Aveiro, por favor, chega depressa. Acabei a minha “Fanta” e segui tendo por companhia apenas a minha grande mala e a minha mochila, onde passeava o meu computador.

Já no comboio, vi-me aflita para arrumar aquela mala. Quando consegui, fiquei com receio de a deixar ali longe de mim, junto à entrada/saída da carruagem, mas não pude fazer nada quanto a isso. Abracei a mochila e sentei-me. Reparei como me sentia cansada.
Ao meu lado, sentou-se um rapaz. Ele disse como se chamava, mas como eu ainda tinha o Ricardo na cabeça, não me lembro do nome do simpático. Confessou-me que tinha chegado de avião ao aeroporto de Lisboa e que era emigrante. Estava na França há já alguns anos. Notava-se que apesar de novo, tinha um aspeto muito desgastado. Fiquei a pensar que eu deveria aparentar o mesmo.
Talvez estivesse na altura de começar a usar um creme antirrugas.

(continua)

Eli

sexta-feira, maio 10, 2013

Francisco #4






Pelo canto do olho, no campo visual permitido disfarçadamente, apercebi-me que a companhia dele era uma mulher loira e bonita. Apetecia-me levantar-me e gritar-lhe que aquela era a nossa expressão! Afinal ele deveria usa-la com todas… senti-me ainda mais cabisbaixa.
Então, lembrei-me de uma coisa! Podia enviar-lhe uma mensagem.
Então escrevi: «Gosto de ti até à lua e da lua até aqui.» Eu sei que não tinha o direito de fazer isso, mas havia muito tempo que não falávamos e eu queria provoca-lo!
Ouço o som de mensagem do telemóvel dele a tocar precisamente atrás de mim. Confirmei, sem o ver, que era mesmo ele.
Pensei em virar-me, mas logo depois perdi a coragem. Pensei no trabalho que tinha tido a esquecê-lo. Aquele mês nos Açores fizera-me mesmo bem. Nunca mais me tinha lembrado dele. Foi um mês abençoado. Viver junto ao mar tempestivo de inverno em S. Miguel. Nada melhor para a vida dar uma volta de cento e oitenta graus.
Fechei os olhos, abri o meu diário e escrevi. Ainda estou a escrever. Sorrio. A escrita sempre me fizera companhia. Lembro-me de ficar a noite inteira a escrever até amanhecer. Que loucura! Já tinha páginas e páginas só de sentimentos.

 (continua)

Eli

quinta-feira, maio 09, 2013

Francisco #3







Logo depois, ao percorrer os longos corredores e as escadas até à estação, dei comigo a pensar naquele meu amigo que precisamente no dia anterior me disse que eu não sabia aceitar. Disse-me que eu queria ser compreendida, mas não deixava que me compreendessem. Aquele homem, aquele desconhecido aceitou a minha dor, mesmo sem saber a sua fonte.
Fui à máquina, mas como não estava a conseguir tirar o bilhete, dirigi-me a uma caixa multibanco, onde aí sim consegui comprá-lo. Ufa! Finalmente, poderia descansar.
Reparei que ainda faltava uma hora e meia para o comboio. Então, coloquei de novo os fones, fiz girar as rodas da minha grande mala azul, coloquei a mochila às costas e segui em direção ao Centro Comercial “Vasco da Gama”.
Curioso, como agora estava rodeada de tanta gente e ainda me sentia mais sozinha. Resolvi descansar dos pensamentos negativos e ver algumas montras.
Mais adiante, sentei-me na zona da restauração pensando em comer alguma coisa. O que tinha comido no avião já se havia diluído há muito…
Quando dei a primeira trinca no “kebab”, começo a concentrar-me numa voz atrás de mim… uma voz tão familiar… não me voltei. Comecei a pensar de onde conhecia aquela voz masculina que me soava tão familiar… até que ele disse uma expressão que me fez cobrir de rubor as minhas faces! Ricardo! Era o Ricardo R. do Montijo! Viro-me ou não?! Pensei em voltar-me para confirmar se seria ele ou não, mas a curiosidade de ouvir mais foi mais forte… e ele repetia.
- “Gosto de ti daqui até à lua.” 
Ela ouvia e ria-se de prazer. 


 (continua)

Eli