Agora nem nómada, nem emigrante.


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segunda-feira, agosto 20, 2012

O amor acontece #17 (por S.)



«Revia todas as manhãs, tardes, noites, horas do nada, do tempo morto, vazio, as lições que as outras vidas ou histórias de fantasia lhe conferem, a juntar à sua...
Repetia o gesto, a palavra soberana, a fórmula certa, a chave, aquilo que julga entender e que intuitivamente entende a cada primeiro olhar cruzado...
Olha-se ao espelho, conta rugas, linhas em que se desdenha e que de pronto se corrige...foi vida...
Desde cedo tivera essa tendência, que alguns ajuizariam de narcísica de se olhar ao espelho...não para o corpo que assumiu já tantas formas, mas para o rosto especialmente...para a boca de lábio grosso, o nariz orgulhosamente empinado e enfim o manifesto reflexo da sua alma...os olhos avelã, de pestana parca e brilho dependente do estado do sentir...queria manifestamente, desde a primeira vez que tomou consciência desse gesto, decorar a sua cara em cada idade...ao ver-se hoje a entrar na barra da idade mais que madura, teórica, ainda se vê adolescente, apaixonada, noiva, casada, grávida, amante extasiada, desgostosa, só...como é possível desenlear filmes atrás de filmes em projecções de memórias ao olhar um rosto ao espelho...
Perde a conta do tempo, basta pouco para ser tanto e diz a si mesma, na voz inequívoca de Deus dentro, palavra de coração que a eterna questão que se coloca não tem fim...
Por teres nascido com asas, seria evidente que te enamorarias eternamente por pássaros...
Gostas de gaiolas? Não...pois não...nem nas douradas te manténs...
Então porque teimas em agrilhoar o sentir ao evidente equívoco de possuir?...
Se tu não és, nem nunca serás de ninguém para sempre, se já te levantaste após lamberes o corpo e a alma em feridas lancinantes, se constatas que tudo volta a acontecer, afinal o que julgas ter perdido quando te questionas olhos nos olhos contigo mesma?
O amor és tu...convence-te...»


S.

P.S. Conclui-se assim a aprensentação deste rubrica. Fiquei agradavelmente supreendida com a forma como enriqueceram este blogue. Muito obrigada.

Eli

segunda-feira, agosto 13, 2012

O amor acontece #16 (por Zeza)


«O som de um momento.
E na altivez de quem chega majestoso, consciente da sua presença, o véu aveludado da noite, ia apoderando-se de mim. Parava tudo à minha volta, por mais forte que fosse o vento, qualquer tormenta ou desalento, só o anoitecer importava, única força que me tomava.
E eu ficava horas, no escuro a observar, cada sombra desenhada, pela luz da "encantada", aquando a sua visita aguardada. Nada sentir, apenas deslumbrar, um quadro primitivo, que todas as noites se repetia, antecedendo o dia.
Uma noite, as sombras mudaram, oscilaram, dançaram. O silêncio foi interrompido por um outro obeservador, sentado perto, quase ao meu lado, soltou palavras de apreço e respeito, pela lua que me movia o peito.
E sem altivez, mas consciente da minha presença, aproximei-me do intruso do meu momento egoísta, em que o luar era a única coisa a valer ser vista.
Se os ramos das árvores dançam no escuro, fazendo das sombras desenho puro, porque não dançarmos também? Que importaria não haver melodia, que importaria o resto do mundo, se naquele mundo não havia mais ninguém?
E na altivez de quem possui uma fortunas, em forma de momento, a emoção foi una, e dançamos, dançamos, dançamos sem parar, entre sorrisos, olhares, gestos e outras formas de falar, e dançamos, como quem dança, ao som de música nenhuma, apenas a do coração a disparar...»

Zeza

P.S. Obrigada pela participação e reflexão.

Eli

:)

segunda-feira, agosto 06, 2012

O amor acontece #15 (por VS)

«E depois do adeus


Podem não faltar razões e motivos para terminar um relacionamento. Mas, sinceramente, não me parece que se possa identificar vencedores e vencidos. O tal amor pelo outro pode ter acabado, mas para além disso há um vínculo de confiança e segurança que é quebrado. E isto é válido para ambos os lados. É difícil não nos sentirmos uma merda. Se de um lado há quem espere por um telefonema, do outro está alguém que equaciona telefonar.
As coisas até podiam estar muito más, mas eram nossas. Podemos ter a certeza de que ficamos melhores sozinhos e que cada um de nós merece ter ao seu lado alguém cujo sentimento seja recíproco. Mas a segurança e o conforto de alguém que já conhecemos, é tentador. Contudo, é necessário, para o bem de todos, resistir a essa tentação porque repetir o fim será ainda mais doloroso. Eu sei que há excepções e que há quem volte a ser feliz ao lado do ex. Não conheço é muitos casos.
Terminar uma relação não é fácil. Deixar para trás alguém com quem convivemos anos e, em algumas situações, até desejamos que sejam felizes pois sabemos que são pessoas excepcionais. O único problema é não existir ou ter acabado a razão que nos juntou. E é por isso que se recorre aos clássicos não-és-tu-sou-eu, preciso-de-espaço ou podemos-continuar-a-ser-amigos. Estas são as formas mais fáceis de sair de uma relação e que geram menos perguntas. Dão a impressão que se trata de uma situação passageira.
Se é difícil terminar, voltar a encontrar a pessoa que já nos viu nus e com quem partilhamos segredos, sonhos e medos também não é fácil. E mesmo não querendo fazer parte da vida dessa pessoa, queremos estar no nosso melhor, demonstrar que estamos bem, sentir que significamos alguma coisa e que houve uma altura em que fomos especiais. Sentir que por mais anos que passem essa relação deixou a sua marca e que não seremos apenas um comum mortal. Mas a verdade é que não podemos exigir o que não estamos dispostos a oferecer.


VS

P.S. Esta participação surgiu claramente de alguém que veio até aqui através do "não compreendo as mulheres". Agradeço portanto ao Bagaço Amarelo e à pessoa que partilhou este sentimentos com este blogue.

:)

Eli

P.S. Post agendado

segunda-feira, julho 30, 2012

O amor acontece #14 (por CurlyGirl)

«Acordei e Pensei em ti

"O tempo cura tudo", que frase parva. Basta olharmos para um cancro para saber que não é verdade, mas adoramos o conforto desta afirmação, a esperança que ela deposita no futuro, como se o presente fosse uma doença e o tempo o seu Betadine. No que ao amor diz respeito é certo ouvi-la no fim de uma relação ou proferi-la quando temos de acalmar quem está mais em baixo. Já o ouviste e já o disseste. Mentiram-te e mentiste (ainda que acreditando que essa mentira era verdade). O tempo não cura o amor, quanto muito, o amor cura o tempo, porque não há amor que não seja eterno. O amor vive do tempo, conserva-se no tempo, e afirma-se nele.
Hoje acordei, pensei em ti e resolvi escrever-te. Lembrei-me de quando te dizia "para sempre" e tu me respondias "para depois do sempre" e Álvaro de Campos (também ele eterno) nos chamava ridículos. Lembrei-me que no outro dia, o autocarro cheirava a ti e senti falta do teu "abraço forte". Não sei onde estás, com quem estás, como estás, e sei que não vais saber que há alguém que do seu quarto te fala de amor. Do amor que foi nosso, e que agora é meu e teu. Hoje sei que te amei, porque ainda te amo.
Amei-te durante a relação e amei-te no seu fim. Hoje sei que tudo o que fiz foi por amor, ainda que muitas vezes tenha achado que não e hesitado nas palavras. Escrevo-te, agora, por te amar. Nunca fui ciumenta, sempre achei que as algemas num namoro deviam estar apenas destinadas à cama e o tempo mostrou-me que tenho razão. O tempo mostrou-me que amor nada tem a ver com posse. Porque estou aqui e, mesmo sabendo que não fazes parte da minha vida, não preciso de fazer nada para te esquecer. Nunca precisei (até há bem pouco tempo conservava uma fotografia tua na minha carteira). Não quero encaixar nada no teu lugar, a tua pegada é tua e qualquer encaixe feito no espaço a que a ti te pertenceu não ficaria perfeito, ficaria apenas largo ou formaria rachas. Sinto-me feliz porque sei que tenho esta capacidade de te amar.

Apesar de tudo o que aconteceu, pode ser que o vento ou os sonhos, te levem estas minhas palavras. Não estou triste, muito pelo contrário, nem sequer sinto saudades. Sei que não me pertences e que eu não te pertenço. Sei que o amor é muito mais do que isso. Sei que as pegadas estão feitas. Sei que isto não precisa de cura. Sei que terás sempre um lugar.
Sei que ainda há espaço para mais pegadas, também elas eternas.»

CurlyGirl


P.S. Este blogue agradece a partilha e tem um enorme orgulho em publicar mais um texto sentido.

Eli

:)

Post agendado

segunda-feira, julho 23, 2012

segunda-feira, julho 16, 2012

O amor acontece # (por O Sonhador)


«Quente e Frio

Está frio, aqueço-me com uma manta e o calor da lareira. Consigo ouvir a natureza a chorar.
Olho para a janela, está embaciada. Eu sei o que ela esconde. O teu perfume, o teu sorriso, o teu cabelo livre, as tuas gargalhadas. Esconde o nosso jardim. Esconde as memórias.
Anseio. Acredito. Desespero. Choro.
A dor causada pelo vazio e pela saudade. O amor que deixaste para trás quando desapareceste sem deixar rasto.
Agora sento-me no sofá com uma manta para me manter quente e fico a olhar para a janela, à tua espera.
À espera que me chames para o nosso jardim.


O Quente

Levantei-me do sofá, pus a manta por cima dos ombros.
Fui até à janela e passei a mão pelo vidro embaciado.
A natureza já não estava a chorar, tentava agora confortar-me com um sorriso que iluminava todo o nosso jardim. Sentia o calor a penetrar os vidros. A última vez que senti este calor, estavas comigo.


Invades-me o pensamento e não tardou a ver o teu reflexo. Vi-te sair por detrás dos arbusto a correr e a saltar entre gargalhadas, por momentos achei que fosses real, mas no instante a seguir vi o meu reflexo a seguir-te.
Deixei-os ficar, já fazia algum tempo que não via aquela felicidade e por momentos parecia que estava a sentir tudo outra vez.
Arrancaram-me um sorriso.


O Frio

Acordei, vazio.
Volto vezes sem conta à janela na esperança de te ver. Mantenho as cortinas sempre abertas e o vidro sempre desembaciado. Sentei-me no chão durante horas a fio, já me doíam as pernas. A lágrima que transportava a esperança abandonava o meu olho. Chovia novamente lá fora.




Vi um reflexo lá fora, sentado na relva e encostado ao banco. Ele estava ensopado pela forte chuva que se fazia sentir. Vi no seu rosto uma dor enorme e perguntei-me se aquela chuva não seriam as suas lágrimas a cair do céu.
Ela desapareceu e ele estava só.»


O Sonhador


P.S. O que dizer perante estas surpresas que caem no colo deste blogue... sem pedir, apenas querendo.

Eli

:)

Post agendado

segunda-feira, julho 09, 2012

O amor acontece #11 (por Ciara)


«Era noite. Estava quente. A luz da lua trespassava o vidro do carro e estes embaciados já não permitiam que o exterior fosse visível... A música conduzia as nossas mãos embora parecesse que já não mais a ouviamos.
E se fosses tu? Se fosses tu que te entregasses assim, que faria eu? Quantas lágrimas escorreriam pelo meu rosto quente? E por quanto tempo ficariam as minhas mãos congeladas e o meu coração perdido no Mundo?
É incrível a dimensão da confusão que ia na minha cabeça... O teu cheiro, o teu toque, trazes o pior de mim ao de cima...
Odeio-te!
O teu abraço, o teu beijo que me confortam nalguns momentos...
Amo-te!
Talvez fosse melhor não repetir-mos... Desaparece daqui, voa com a lua e não mais voltes!
Espera... Fica, dorme comigo e acaricia-me até adormecer por mais uma noite!
Não digas nada, irrita-me o simples som da tua voz, repugna-me o modo como me olhas...
Mas peço-te, sorri comigo mais uma vez, embrulha-me no teu olhar e sussura-me ao ouvido...
Diz que não me queres mais, que já não é o mesmo sentimento, que me usaste... E diz... Diz ao mesmo tempo que sou a mulher da tua vida, pede-me de joelhos que seja para sempre e dá-me um beijo apaixonado, o melhor que tiveres!
O que é isto? Não sei, acho que se chama amor e em qualquer lugar, de qualquer jeito, sob qualquer forma... Ele acontece!»


Ciara.




P.S. Shame on me, desta vez não fiz um comentário. Estou aqui para redimir-me. Pensei eu que a Ciara tinha estado tão inspirada que eu não viria aqui fazer nada ao comentar. No entanto, neste momento sinto que ainda não lhe agradeci o suficiente, daí estar aqui agora a abraçá-la com carinho. Obrigada.

Eli

segunda-feira, julho 02, 2012

O amor acontece #10 (por ana)

«O amor encontrou-me, ainda era eu um projecto de pessoa. Nunca pensei sobre o que terá sentido quando soube que ia ter uma neta, a primeira neta. E nunca pensei nisso porque nasci com a certeza de um amor incondicional, com a certeza que aquelas mãos fortes me iam amparar vida fora.


Hoje olho para as fotografias e vejo-lhe o sorriso ao ter-me nos braços. E aquela segurança de quem nasceu para ser Avô. O seu jeito tímido não impedia que o amor transpirasse por todos os poros, brilhasse nos seus olhos e me aquecesse no seu abraço.


Foi companheiro, educador, exigente mas de um orgulho explosivo dentro do seu grande coração.  Ensinou-me o que era o altruísmo, mostrou-me uma vida que nos deixa em paz connosco mesmos onde dar e ajudar são verbos frequentes. Foi cúmplice de histórias, de matreirices, de festas e brincadeiras. Não se importava de, todos os dias, tirar a minha bicicleta guardada para eu esmurrar os joelhos porque lhe bastava o meu sorriso para ocompensar. Mostrou-me a música que gostava de ouvir, contou-me a sua vida, o que sabia e o que procurava saber com aquela fome de conhecer mais. Viamos a Missão Impossível juntos e eu assistia aos arranjos que ele programava com tanta minúcia em desenhos para os quais tinha um talento escondido. Foi o meu herói, aquele que pegava nos tachos quentes sem pegas e sem se queimar, aquele que todos respeitavam e com quem me orgulhava de andar na rua.


É parte de mim. É tudo o que eu quero seguir e imitar. E nem preciso de esforço porque penso que bebi imenso na personalidade dele, porque uma pessoa com um P bem grande só pode ser como o meu Avô foi durante 84 anosde vida.


O amor aconteceu e continua a acontecer todos os dias que, para mim, são de homenagem ao homem da minha vida. O amor aconteceu quando ele me deu tanto e só pediu que, em troca, eu fosse eu. E sorrimos e demos as mãos. Até ao fim. O amor aconteceu na vida de toda a gente que se cruzou com esse grande Homem que ele foi.


 O amor acontece quando uma lágrima de saudade, imensa saudade, me lava o rosto. O amor acontece porque um dia neste mundo existiu o meu Avô e fez disto um mundo melhor. »


ana



P.S. Quando eu já nem estava à espera, a Ana surpreende-me com este texto digno de um olhar tão ternurento... Obrigada.

Eli


segunda-feira, junho 25, 2012

O amor acontece #9 (por Bagaço Amarelo)

«Alarme


Lembro-me perfeitamente da primeira vez que disse a uma mulher que a Amava. Não me lembro, no entanto, da primeira vez que o pensei. É que pensei muitas vezes na palavra Amor antes de a dizer pela primeira vez. Isso deve-se ao facto de, apesar de ser muito raro apaixonar-me verdadeiramente, ser muito fácil sentir-me apaixonado todos os dias por uma mulher qualquer. É uma sensação que desaparece tão depressa como aparece, mas que nessa sua vida efémera é bastante intensa.
Também é verdade que isto me acontece muito mais facilmente nas fases da minha vida em que estou só, sem namorada. É como se o meu coração fosse um apartamento pequenino onde só cabe uma mulher de cada vez e, por isso, quando está ocupado é-me muito mais difícil sentir algo forte por alguém. Quando estou só, sou capaz de ter essa sensação de alarme no metro, no autocarro, num bar qualquer ou até na fila da repartição das finanças.
Foi precisamente no autocarro que me apaixonei pela Mónica, numa viagem em que ela adormeceu ao meu lado e deixou a cabeça cair sobre o meu ombro. É-me difícil explicar, mas quando isso aconteceu eu ainda nem sequer a tinha visto bem. Ia ao lado dela a pensar noutra coisa qualquer, mas quando ela se encostou a mim o meu coração acelerou imediatamente. Apaixonei-me, portanto, pelo toque e fui o resto da viagem petrificado, a tentar imaginar como seriam a face e a voz dela. Os cabelos, esses, eu via-os e eram longos e negros. Para não a acordar, e também para aproveitar esse encosto o mais tempo possível, deixei-me ir muito para além daquela que seria a minha saída. Regressei a casa mais tarde, fazendo a pé cerca de três quilómetros.
Foram três quilómetros feitos muito calmamente, em passos curtos e incertos, a pensar nesse novo Amor da minha vida. Era uma sensação boa, porque eu sabia que era um Amor que não passava dum desses alarmes que vão e vêm com o vento. Afinal de contas, tinha-me apaixonado apenas porque ela adormecera no meu ombro, sem lhe ver bem a cara ou ouvi-la a falar. Muito provavelmente nem me lembraria dela no dia seguinte.
O problema é mesmo esse: o dia seguinte. Acordei e ela foi a primeira coisa que me veio à cabeça. Veio e, diga-se de passagem, nunca mais saiu. De tal forma que nos dias seguintes apanhei o mesmo autocarro várias vezes por dia só para ver se me cruzava com ela, o que veio a acontecer cerca de uma semana depois. Vi-a exactamente no mesmo banco e sentei-me à frente dela, como quem não quer a coisa, e acho que ela me reconheceu. Pelo menos riu-se timidamente. Nessa viagem, em que finalmente a vi de frente, confirmou-se a minha paixão. O meu coração tornou a acelerar terrivelmente e eu fiquei incapaz de reagir.
Durante muito tempo aquelas viagens de autocarro repetiram-se. Cheguei a fazer um mapa com as horas a que ela apanhava o autocarro e já não falhava uma única viagem em que ela estivesse. Era sempre o mesmo: eu à frente dela como se fosse um homem estátua e ela à minha frente como se não fosse nada. Às vezes ia séria, outras vezes sorria um pouco. Suponho que tinha a ver com as suas variações de humor e da forma como o dia lhe tinha corrido. Perdi a conta às viagens que fiz com ela assim, nesse meu silêncio sofredor.
Nunca falámos um com o outro até ao dia em que ela, uns minutos antes de sair, me disse que era a última vez que andava naquele autocarro. Ia viver para Lisboa, onde tinha arranjado um emprego melhor. Eu corei e encolhi-me perante as evidências. Tchau!, disse ela por fim. Fiquei a vê-la pela trémula e enorme janela do veículo, lá fora, virada para mim e a sorrir-me enquanto dizia adeus com a mão. Embaciei o vidro com o meu bafo e escrevi "Amo-te" ao contrário, para ela conseguir ler. Foi essa a primeira vez que o fiz.»

Bagaço Amarelo



Confesso que me identifico mesmo muito com a escrita... agradeço muito a partilha.

Eli :)

Post agendado

domingo, junho 17, 2012

O amor acontece #8 (por Rui Pires)


«


A cada dia somos iluminados e abençoados pelo astro rei e porque em cada raio de sol, pode existir sempre uma esperança de o amor acontecer, vamos alimentando a cada dia esse desejo, tendo sempre presente que haverá um amanhã...
Uma imagem vale mais que mil palavras, duas imagens valem mais que duas mil...
E se o amor tiver que acontecer, assim será!!!!







Desta vez agradeço a este autor de um fabuloso blogue de fotografia.

Eli :)

Post agendado

P.S. Estou a publicar mais cedo do que o previsto devido às condições técnicas - o meu computador avariou.

segunda-feira, junho 11, 2012

O amor acontece #7 (por Rafeiro Perfumado)


«Infelizmente, o amor acontece



O fim do dia aproximou-se, inexoravelmente, chegando a hora de largar o trabalho sensaborão e regressar a casa. O mesmo caminho, o mesmo comboio, os mesmos passageiros. Mas ali não encontra calor, é um mundo de caras fechadas, de prestações da casa atrasadas, de dramas familiares vividos em segredo.

Sempre achou que um dia o amor lhe sorriria, talvez ali mesmo, naquele comboio. Uma qualquer mulher encantadora sentar-se-ia ao seu lado, meteria conversa com ele sobre o livro que estava a ler e sorririam, sabendo que desceriam os dois na mesma estação, de mãos dadas para a vida.

Olhou para o lado. A velha de sempre, com o furúnculo na ponta do nariz, as unhas sebentas que agarravam uma caneta toda roída, com a qual fazia as palavras cruzadas de uma Nova Gente já com dois meses. Suspirou. Ainda pensou em dar-lhe uma dica para a 8 vertical, mas temeu que ela quisesse descer com ele na sua estação.

Sem dar conta, já estava em casa, ceando comida congelada, uma qualquer fast food que só lhe reconfortava o estômago, não a alma. Na televisão, os debates de sempre, os concursos repetidos até à náusea, tudo gritando o quanto tinha uma vida oca e sem sentido.

Deitou-se, esperando sinceramente não acordar, pois sabia que o dia que se seguiria seria igual a este que terminara. E foi então que o amor aconteceu. Foi é no apartamento ao lado, e com uma tal intensidade que passou a noite acordado, jurando que no dia seguinte ia levar uma caneta nova à velha, a ver se tinha sorte. »




Sete anos, sete participações. Comemoro a rir, pois as minhas expetativas já foram superadas.

Obrigada a todos!

(Ainda há mais! Esperem pelas próximas segundas-feiras.)

Eli :)

Post agendado

segunda-feira, junho 04, 2012

O amor acontece #6 (por S*)

Quando lancei este desafio, a S* respondeu na caixa dos comentários:

"S* disse...



o amor acontece quando menos se espera... chega de mansinho e arrebata-nos por completo."


Entretanto, no dia em que comemorou dezanove meses com o seu amor, inspirou-se e escreveu:


"Hás dias em que stresso por todos os lados. Há dias em que o trabalho se complica, dias em que o dinheiro não estica, dias em que as preocupações me assombram de forma constante. Nesses dias, o único conforto está em ti. És tu. Tu acalmas-me. Abraças-me, seguras-me, proteges-me. Chego a casa, cansada do trabalho, das preocupações e da vida, mas o teu sorriso dá-me o conforto necessário. Tu tornas os meus dias mais fáceis. Tornas as preocupações menos preocupantes. Fazes as dores menos dolorosas. És aquele que está sempre “lá” para mim, aquele que me faz rir com as palhaçadas constantes, aquele que tem num abraço toda a força do mundo. És quem eu amo, és quem me ama. Isso faz de ti o homem mais especial do mundo."


P.S. Palavras para quê?! Eu também sou assim.

Eli :)


Post agendado e já publicado no blogue da S*.

segunda-feira, maio 28, 2012

O amor acontece #5 (por James Dillon)

"O amor acontece,



     «Amanhã vou encontrar-te, de esquina em esquina, em estradas marcadas pelo tempo, por neblinas Sebastianistas te encontrarei, por trilhos fechados com cadeados de puro ouro ornamentados de pedras preciosas invioláveis, mesmo assim persistirei para te encontrar, amanhã desfraldo velas latinas numa casca de noz e lanço-me por oceanos pejados de borrascas, amanhã, é amanhã.

     Maquiavel pergunta-se "como posso libertar um povo que prefere a escravidão?," destas amarras não quero ser libertado, aqui e agora prendam-me uma âncora ao pescoço e atirem-me borda fora, janela fora, torturem-me: mil dores de ácidos colados a esta minha pele suja são irrelevantes se no fim da equação viro a esquina pela milésima vez e me sorris em longínqua proximidade, mesmo que te reveles uma mera miragem alimentas esta alma perdida entre afagos e suspiros, sofregadamente brado por teu toque em minha pele encarquilhada devido a uma megera de metafísica que insiste empurrar-me na direcção oposta.

     Ontem desprezei-te e vi-te partir sem um olhar para trás, segui teus passos e o meu peito uivou de dor enquanto a distância aumentava, mal o olhar se cruzou pela última vez percebi o erro das minhas acções, incongruência de um coração que não encontra seu lugar neste corpo, dor e confusão numa relação simbiótica, os erros surgem e tarde demais abro os olhos, agora, sento-me neste quarto vazio próspero em recordações tuas que só para mim fazem sentido e olho para o horizonte, meu horizonte, ignoro inúmeras fatalidades de uma cidade imbuída no caos, desprezo gritos de ajuda, suspiros de dor, crises de existência, o único ponto é aquele foco contínuo de luz que marca teu lugar e para onde vou, ao longe meu farol que partiu por pedido e agora não regressa nem com suplica, arrependo-me prostrado de joelhos e lanço maldições e palavras de escárnio a não outro que a mim e à minha indefinição, sem um braço, sem uma perna, sem alma, sim, sem este pedaço no meu peito, com esta dor inatingível não, enrosco-me para chorar mas nem isso me concedem.

     Reúno comigo em concílios internos, em redundâncias líricas desligadas de conexão porque o sentido de A mais B foi suprimido com a ausência da razão pela qual me entregava à necessidade de absorver oxigénio, falo comigo próprio em busca de motivos para com surpresa encontrar seres minúsculos dentro de minha pele em convulsões confusas, em sistematizações desligadas de senso, em busca por algo mais, relembro as minhas queixas, relembro os meus motivos para te pedir para partir, e agora na sapiência tardia questiono uma existência que se revela vazia: sem o teu corpo para tocar, sem o teu respirar para sentir no pescoço, sem a tua pele para arranhar enquanto dormes, sem o teu apoio para escolher que norte seguir, sem a tua companhia para me tornares uno e completo, sem ti rumo para o fim do mundo, entrego-me ao oblívio, caio em redundâncias enquanto dou trinta e três voltinhas por minuto para nunca encontrar saída. Por favor regressa e trás contigo meu coração rendido caído algures no trilho. Por favor regressa e torna-me completo, por favor volta e acalma a tempestade em minha mente, por favor atira-me uma corda antes que o convite para o mundo de Dante se torne irresistível."»

James Dillon


P.S. Confesso que esta participação me surpreendeu. Continuo muito agradecida por partilharem as vossas ideias e sentires neste blogue, que se curva agora perante James Dillon.

Eli

:)

Post agendado

segunda-feira, maio 21, 2012

O amor acontece #4 (por Manuel Luis)


«O amor acontece. Numa quinta, por exemplo, num domingo de super lua, depois do silêncio da manhã; começa em cafés às 10h da manhã; de repente, no meio de uma neblina na acidez da aurora, depois de uma noite votada à alegria póstuma, que não veio; o amor acontece no desenlace das mãos, como tentáculos saciados, e elas movimentam-se no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor acontece-se; na insónia dos braços luminosos do relógio; o amor acontece nas geladarias diante do colorido dos gelados de figo e amêndoa; e no olhar do cliente errante que passou pelo café; às vezes o amor acontece nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no esvoaçar diferente de um filhote que caiu do ninho; no cantar aflito da Mãe; nas tanjerineiras, nas oliveiras, nos corrimões e nas sílabas do canto; quando um mocho se habitua à estaca empoeirada de polen, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acontecer; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles de vinho à volta das pipas; na semente tantas vezes semeada, às vezes vingada por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos entre o pólen e o gineceu de duas flores; num quarto refrigerado, forrado a madeira, cheio de brilho, onde há mais encanto que desejo; e o amor acontece na poeira que as flores vertem, caindo impercetível no beijo de ir e vir; no autocarro, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se erriça e acontece; no inferno o amor não acontece; no fogo do pinhal o amor  dissolve-se; em Coimbra o amor pode virar pó; no Mondego, frivolidade; no Sobral, tristeza; em Angola, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acontece; uma carta que chegou antes, e o amor acontece; na controlada fantasia do libido; às vezes acontece na mesma música que começou, com o mesmo brinde, diante dos mesmos chilreios; e muitas vezes acontece em ouro e diamante, nos meus Pais com idade avançada dispersando entre as estrelas; acontece nas encruzilhadas de Coimbra, Angola, Algarve; no coração que se dilata e quebra, e o cardiologista Ricardo sentencia o mixoma; na equipa  imprestável para com o amor da profissão; e acontece nos corredores, tocando na porta certa, até se desfazer na sala fresca e iluminada; e acontece de pois que vi as cores dos uniformes que veste o mundo dos proficionais; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes o amor acontece e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua refletindo sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acontece como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acontecer com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articula, e acontece o amor; na verdade; uma bebida; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; no castanho dourado do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acontece; a qualquer hora o amor acontece; por qualquer motivo o amor acontece; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acontece.
Texto baseado em factos reais que aconteceram e acontecem comigo.»

Manuel Luis






É com um enorme agrado que publico (mais) uma participação de um querido leitor.

Eli

:)

(Post agendado.)

domingo, maio 13, 2012

O amor acontece #3 (por Gonçalo Cardoso)

"O amor acontece quando a diferença de idades não importa, os estados civis são acessório, e a opinião paterna nem sempre é respeitada. As lágrimas surgem, a verdade é sentida de forma tão íntima que os outros não percebem, e os conflitos surgem por um bem maior. Esse bem é o amor. Nasceu, sobreviveu e agora cresce nas margens do rio, sob uma paisagem verde num quadro granítico. O amor acontece! Baseado numa história verídica."

Gonçalo Cardoso




Cá está a participação sempre sentida do meu amigo. Obrigada por fazeres parte e aceitares o Desafio!

Eli

domingo, maio 06, 2012

O amor acontece #2 (por Sofia Marceneiro)

"O Amor acontece quando…
Te ouço, nas palavras estonteantes e quentes
Te penso, no arco-íris da minha alma

Te sinto, nos sorrisos mascarados de desejo
Te desejo, na pele que clama por ti
Te anseio, na vontade de te ter
Te sonho, na imperfeição mais perfeita
E assim… O Amor Acontece… Quando te sonho…"

Sofia Marceneiro


P.S. Mais uma participação sentida. Agradeço-te Sofia, por abrilhantares este espaço escuro.

Eli

segunda-feira, abril 30, 2012

O Amor Acontece #1 (por mfc)

«A Minha Micas





A 19 de Julho morreu no meu colo, depois de 17 anos de uma cumplicidade imensa.
A alguns pode parecer caricato o amor por um bicho.
A mim parece-me absolutamente normal e natural.
Foi o único ser com quem convivi horas a fio por dia, durante tanto tempo, e que perdi para sempre.
Não o estou a comparar a outros amores (pai, avós, tios), mas este era como  um filho meu... o quinto!

Beijos.

mfc»




Esta foi a primeira participação nesta comemoração dos sete anos de blogue. Achei lindíssima esta partilha. Os meus parabéns por um amor assim.

Eli

P.S. Quanto às restantes participações, vou publicando uma a uma como se de uma surpresa se tratasse! Ainda estão a tempo para participar.