Ele respirou fundo numa derradeira
tentativa:
- De onde vens?
- Açores, S. Miguel.
- Gostava muito de ir visitar os
Açores!
- E eu gostava imenso de ir a
Paris! – Esforcei-me.
- Eu não estou em Paris, mas é lá
que passo os fins de semana, em casa da minha tia. Se não fosse ela, não teria
vida nenhuma lá. Já conheço os cantos todos à cidade, graças aos mapas que ela
me desenha.
- E ela não vai contigo?
De repente, ouço o meu telemóvel,
som de mensagem.
O Ricardo respondeu «e eu da lua
até aqui. Quero-te.»
Senti um calor invadir-me as faces.
- Namorado. – Disse o meu
companheiro de viagem, aliás, o colega de banco.
- Não…
Olhei pela janela e não dissemos
mais nada durante algum tempo. Anoiteceu. Eram
quase vinte e uma e trinta. Ele pegou no telemóvel para também ver as
horas.
- Vens cá por quanto tempo? –
Perguntei, finalmente.
- Ainda não sei bem. Não sei sequer
se volte. Tenho cá a minha velhota que já está um bocado acabada e precisa de
mim para arrebitá-la.
Pensei nos meus. Pensei que também
havia quem precisasse de mim se eu deixasse.
- Também vais sair em Aveiro, não
é?
- É. Tenho um amigo que me vem cá
buscar, porque vou para Mangualde.
Logo a seguir, não sei porquê,
dei-me conta que ele também teria sido aquela pessoa que chegando ao aeroporto
de Lisboa, não teria tido ninguém à sua espera.
Como os meus pensamentos eram
egoístas.
À saída da carruagem, ajudou-me a
carregar a mala e, seguidamente foi buscar as suas duas. Agradeci-lhe e
dissemos um “adeus” rápido de quem não se tornará a ver, jamais.
De soslaio, ainda o vi abraçar o
amigo. A minha garganta ficou apertada, mas ninguém sabia. Olhei à minha volta
e eu era a única pessoa sozinha e parada no meio da estação.
Então, disse baixinho:
- Aveiro, cheguei.
Eli


