Agora nem nómada, nem emigrante.


segunda-feira, maio 13, 2013

Francisco #7





Ele respirou fundo numa derradeira tentativa:
- De onde vens?
- Açores, S. Miguel.
- Gostava muito de ir visitar os Açores!
- E eu gostava imenso de ir a Paris! – Esforcei-me.
- Eu não estou em Paris, mas é lá que passo os fins de semana, em casa da minha tia. Se não fosse ela, não teria vida nenhuma lá. Já conheço os cantos todos à cidade, graças aos mapas que ela me desenha.
- E ela não vai contigo?
De repente, ouço o meu telemóvel, som de mensagem.
O Ricardo respondeu «e eu da lua até aqui. Quero-te.»
Senti um calor invadir-me as faces.
- Namorado. – Disse o meu companheiro de viagem, aliás, o colega de banco.
- Não…
Olhei pela janela e não dissemos mais nada durante algum tempo. Anoiteceu. Eram  quase vinte e uma e trinta. Ele pegou no telemóvel para também ver as horas.
- Vens cá por quanto tempo? – Perguntei, finalmente.
- Ainda não sei bem. Não sei sequer se volte. Tenho cá a minha velhota que já está um bocado acabada e precisa de mim para arrebitá-la.
Pensei nos meus. Pensei que também havia quem precisasse de mim se eu deixasse.
- Também vais sair em Aveiro, não é?
- É. Tenho um amigo que me vem cá buscar, porque vou para Mangualde.
Logo a seguir, não sei porquê, dei-me conta que ele também teria sido aquela pessoa que chegando ao aeroporto de Lisboa, não teria tido ninguém à sua espera.
Como os meus pensamentos eram egoístas.
À saída da carruagem, ajudou-me a carregar a mala e, seguidamente foi buscar as suas duas. Agradeci-lhe e dissemos um “adeus” rápido de quem não se tornará a ver, jamais.
De soslaio, ainda o vi abraçar o amigo. A minha garganta ficou apertada, mas ninguém sabia. Olhei à minha volta e eu era a única pessoa sozinha e parada no meio da estação.
Então, disse baixinho:
- Aveiro, cheguei.

Eli

6 comentários:

SuperSónica disse...

Estou a adorar...

Graça Pereira disse...

O egoísmo é a porta que nos conduz à solidão...porque não ser sincera com o companheiro de viagem?
Gostei e quero ver como termina...
Beijocas
Graça

Mariazita Azevedo disse...

Boa tarde, Eli
Entrei aqui pela mão de um amigo e fiquei um bom bocado.
Como apanhei o comboio já na 7ª.paragem e não estava a entender... resolvi ir até à "estação" inicial - aeroporto da Portela.
Gostei do que li. É uma história bem engendrara, que deixa vislumbrar uma continuação interessante.
Voltarei para acompanhar.

Entretanto vou fazer-me tua seguidora para não te perder o rumo. Se quiseres fazer o mesmo... dar-me-ás muito prazer.

Boa semana. Beijinhos

Eli disse...

SuperSónica

Agradeço, mas ainda não tenho a continuação! :))

Eli disse...

Graça Pereira

Os seus comentários são sempre pertinentes, o que agradeço. Considero as suas questões, reflexões! :)

Ainda não tem final, mas os V. comentários dão-me vontade de continuar a contar histórias.

:)

Eli disse...

Mariazita Azevedo

Agradeço a sua amabilidade. Quiçá poderia-me contar de quem era essa mão que a trouxe até aqui. Fico muito embevecida quando tal acontece.

Já fui visitar também o seu espaço. Continuação e agradecida pela simpatia. :))