Agora nem nómada, nem emigrante.


sexta-feira, outubro 23, 2009

Papel?

Estava a escrever um comentário num blog e... de repente, tomei outra decisão. Vou começar a escrever aqui também sobre o meu lado profissional. Afinal de contas é a minha vida e por mais que isso seja descrito aqui de uma forma subtil, penso que já estou a perder a piada, pois o lado sentimental anda meio apagado e, com isso também o blog.

Como tal, vou despejar aqui umas tantas coisas!

Estava no blog da Professorinha (link ali ao lado) quando me apercebi que o que tinha lido tinha-me suscitado fazer justiça a uns tantos comentários que não só li lá como já tenho ouvido por parte de gente mal informada.

Portanto, vou ajudar nessa comunicação.








Uma amiga e colega respondeu a alguém com aquela conversa de "ah e tal ser professor é que é bom":

- Vem passar um dia inteiro comigo e depois podes dizer o que quiseres.

A tal pessoa não quis. Engoliu em seco.

Não se fale daquilo que não se sabe.

Se ser professor é tão bom, por que é que não escolheu esta profissão?!

Há quem nunca esteja em casa a semana toda e mesmo quando gostaria de ir a casa, porque é fim de semana e tem direito a uma paragem, não pode, porque está numa ilha a trabalhar, ou está tão longe que o dinheiro NÃO chega MESMO, pois ou se paga a estadia para trabalhar e o carro para as deslocações ou então não trabalha.

Estou a comprar tempo de serviço. Já ouviram falar em "chapa ganha, chapa gasta"?!

Pois é, aplica-se!

Às vezes, é tão cansativo segurar no braço de um aluno para que ele não agrida outro e dar a aula ao mesmo tempo que acho que chegar a casa várias noites cerca das 22h depois de estar a trabalhar desde as 8:30 já nem deve ser referido, apesar de ser lembrado.

Podia fazer as 35 horas na escola (ah ah ah são estas que me pagam... as outras ofereço...) e depois vinha para casa! Yupiiiii! Quando isso acontece tenho que mergulhar nos papéis.

Afinal de contas é Sexta-feira e, apesar do meu horário acabar hoje às 15:30, estive na escola a preparar aulas, escrever a letras manuscritas e ditongos vinte vezes, porque tenho limite de fotocópias!

E fiquei a fazer super-visão, pois se não estiver lá, os colegas não conseguem dar aula.

Por que é que estou assim hoje?!

Fui a casa no último fim de semana.

No Domingo...
Estando sozinha em casa, vim logo à hora de almoço, praticamente sem almoçar, porque não me apeteceu sentar a comer sozinha e precisava de chegar cedo para ter lugar para estacionar aqui na rua, já que vinha carregada.
Segunda-feira
Dia TODO a trabalhar. A formação à noite foi positiva, mas ter que andar nos becos perigosos sozinha, fez-me sentir medo. Cheguei a casa por volta das 22h.
Terça-feira
Cheguei a casa às 18h. Dormi um pouco para aguentar o resto da semana. Adormecer sempre depois da uma e acordar antes das oito é desgastante.
Quarta-feira
Reunião extraordinária. Implicâncias. Cheguei por volta das 22h. Tive que estacionar longe e chovia muito. Não tive medo, pois já estava tão abatida que já nem me importava com nada...
Quinta-feira
Saía às 15:30 mas arranjaram uma formação da treta sobre a Gripe A, que não serviu para nada! Gosto de aprender (como na Segunda), mas não foi o caso e nem sequer temos certificado! Lá para as 17:30 fui tratar da Via Verde. Finalmente não vou perder tempo nas portagens. Fiz algo por mim que não era trabalho, mas que comprei para vir trabalhar!
Sexta-feira
Saí cerca das 18:00 ! O meu horário era até às 15:30. Mais uma vez não usufruí. Fiquei a fazer super-visão, pois se não estivesse lá, os colegas não conseguem dar aula. Estive a preparar aulas, escrever a letras manuscritas e ditongos em vinte folhas, porque já não posso tirar mais fotocópias este mês.

Ser professora é a única coisa que sei fazer de melhor. O problema é que complicaram tanto que a parte que eu gostava mesmo, aquela que me faz andar tantos quilómetros longe, a tal que me fazia sentir vocação para o ensino é uma percentagem mínima. Passo o tempo a tentar educar para que haja o mínimo de condições dentro da sala.

Se houvesse respeito, teria meio caminho andado para não sentir isto tão penoso!

Os instantes que tenho felizes ainda compensam pelo que ainda poderá vir...

Eli

:)

8 comentários:

Anónimo disse...

Numa sala de aulas, sempre me vi no outro lado da ''barricada'', no lado oposto ao dos profs.
Eu até nem era um aluno insubordinado,nem com pouca vontade de aprender, por isso nunca fui um osso duro de roer para os meus profs, mas também nunca, em tempo devido, me apercebi do quão trabalhoso e difícil era estar no pulpito.
Hoje, já com um pouco mais de distanciamento e maturidade, consigo finalmente perceber e respeitar esses nobres profissionais que, durante anos, nos ajudam a crescer, intelectualmente e emocionalmente.
Quem corre por gosto , não cansa! Grande treta!
Se ensinar é a tua profissão e a tua vocação, espero que corras sem te cansar.
:-))

em_segredo

Eli disse...

Eu canso-me, mas continuo a correr, pois espero conseguir inverter a situação e acredito que algum dia, em vez de piorar, melhore. Posso ser um grão de areia numa praia, mas acredito!...

:)

Professorinha disse...

Eli

Ainda bem que te inspirei a escrever sobre o teu lado profissional! As pessoas precisam de saber o que nós trabalhamos, como trabalhamos e o QUANTO nós trabalhamos! Muitas pensam (os alunos inclusive) que nós é chegar ali e despejar qualquer coisa que tenhamos pensado 5 minutos antes!...

O teu post só mostra que nós não trabalhamos nem 35 nem 40 horas como o resto da população, trabalahmos muito mais e ninguém dá valor a nada!! Porque temos IMENSAS férias!! POrque só trabalahmos quando damos aulas! Porque temos intervalos!! Tudo incomoda estas pessoas!! Se é tão bom, eles que tentem ser professores também! As portas estão abertas!

Vou linkar o teu blog lá no meu canto :)

Eli disse...

Professorinha

Já te tinha lido, mas não me tenho revelado quantas vezes apareço lá... no entanto, daquela vez teve mesmo que ser. Aproveitei para mudar!

:)

Gonçalo disse...

Gostei da mudança no blogue, estás mais aberta e frontal!
Estou contigo na luta contra a precariedade e falta de dignidade laboral, há profissões tão bonitas mas cheias de espinhos que por vezes colocam dúvidas sobre a beleza das profissões!
Beijinhos fofos e continua assim :)

Storinha disse...

Pois é... é tão fácil falar à toa...
Quando tomo conhecimento destes relatos (tanto o teu como o da "Professorinha"), lembro-me sempre da canção do Paulo de Carvalho... Gostava de vos ver aqui...

Eli disse...

Gonçalo

Agradeço imenso as tuas palavras.

Devemos mudar sempre, principalmente quando descobrimos uma forma de mudar para melhor!

:)

Eli disse...

Storinha

Quando aproveito o final do dia e venho aqui, quando não tenho capacidade para mais, faz-me bem ler estas opiniões e deixar-me levar!

:)